Herbariumum projecto Backpackers

Glossário

As fichas usam palavras como umbela, folíolo e glabro porque não há sinónimos honestos: "aquela coisa em forma de chapéu de chuva" não distingue uma cenoura-brava de uma cicuta, e a diferença entre as duas mata. Estão aqui os termos que as fichas usam mesmo, contados em todas as fichas, e definidos em linguagem de quem tem a planta na mão.

As nossas palavras

Comestível
Nesta app, esta etiqueta significa uma coisa só: usada tradicionalmente como alimento. Nunca significa que a podes comer. A diferença não é rodeio legal: um estudo de 2023 testou as apps de identificação mais usadas e cinco de onze espécies tóxicas foram dadas como comestíveis por pelo menos uma delas. Quem decide é quem está no terreno, com o livro na mão e com dúvidas a mais para arriscar.
Endemismo
Planta que não existe naturalmente em mais lado nenhum do mundo. A Madeira e os Açores têm dezenas, e é por isso que valia a pena escrever as fichas das ilhas mesmo sabendo que menos gente as procura. Uma espécie endémica perdida é perdida para sempre.
Família
O grupo grande a que a espécie pertence, com o nome quase sempre a acabar em aceae. Serve mais do que parece no terreno: reconhecer a família reduz milhares de hipóteses a dezenas, e algumas famílias inteiras merecem cuidado, como as Apiaceae, que incluem a cenoura e a cicuta.
Ficha
A página de uma espécie neste guia. Cada uma é escrita e revista à mão, com sinais de campo, sósias, época e avisos. Não é gerada automaticamente nem traduzida por máquina: existe em português, inglês e castelhano porque foi escrita nas três.
Invasora e naturalizada
Naturalizada é uma planta que veio de fora e passou a reproduzir-se sozinha sem fazer estragos. Invasora é a que passou a ocupar o lugar das outras: forma manchas cerradas, muda o solo, e nalguns casos é crime plantá-la ou transportá-la. Muitas das mais bonitas dos Açores e da Madeira são invasoras, o que torna a ficha um aviso e não uma sugestão de jardim.
Medicinal
Etiqueta de uso tradicional, sempre no passado. Diz o que se fazia, não o que se deve fazer, e em nenhum caso indica dose, preparação ou indicação terapêutica. Muita planta com longa fama medicinal é também tóxica na dose errada, e a dose errada é fácil.
Nome científico
Duas palavras em latim: o género e a espécie, como Olea europaea. Existe porque os nomes comuns mudam de aldeia para aldeia e o mesmo nome serve muitas vezes plantas diferentes. Cuidado com uma coisa: a mesma planta pode ter tido vários nomes científicos ao longo do tempo. Chamam-se sinónimos, e são a razão pela qual às vezes procura e não encontra.
Sósia
Outra planta com que esta se confunde no terreno. Não é uma parente: é uma armadilha. Cada ficha lista as suas e, para cada uma, o sinal concreto que as separa, porque dizer que duas plantas se parecem sem dizer como distingui-las não ajuda ninguém. A gravidade vai de 1 a 3, e 3 quer dizer que a confusão pode matar.
Tóxica e irritante
Duas coisas diferentes, e a diferença importa. Irritante faz mal por fora: queima a pele, os olhos ou a boca, e passa. Tóxica faz mal por dentro, ao ser engolida, e pode não passar. Uma planta pode ser as duas. O grau de perigo que usamos vai de 0 a 3, e a partir de 2 o aviso é mostrado antes do texto e antes da fotografia.

A flor

Bráctea
Folha modificada junto à flor, muitas vezes colorida e confundida com pétala. O vermelho do bico-de-papagaio são brácteas, não flores.
Cálice
O conjunto das sépalas, ou seja o anel verde na base da flor. Em muitas labiadas persiste depois de a flor cair e serve para identificar a planta seca, fora da época.
Capítulo
O que parece uma flor nas margaridas, nos cardos e nos girassóis é na verdade centenas de flores minúsculas apertadas num disco. Por isso uma margarida não tem pétalas: tem flores em forma de pétala.
Corimbo
Flores com pés de comprimentos diferentes que acabam todas à mesma altura, deixando o topo plano. Parece uma umbela mas os pés não saem do mesmo ponto.
Corola
O conjunto das pétalas. Diz-se que é tubular quando as pétalas estão soldadas num tubo, como nas campainhas.
Dioica e monoica
Dioica quer dizer que há pés macho e pés fêmea separados, e só os pés fêmea dão fruto. É por isso que uma azevinheira pode passar anos sem bagas: não é doença, é sexo. Monoica tem os dois no mesmo pé.
Espiga
Flores sem pé, encostadas directamente a um eixo comprido, como no trigo ou na tanchagem.
Estame
As hastes finas no centro da flor, com uma bolsa de pólen na ponta. O número e o comprimento separam famílias inteiras.
Estigma
A ponta pegajosa no centro da flor onde o pólen adere. No açafrão são os três fios vermelhos que se colhem.
Invólucro
O anel de brácteas por baixo de um capítulo ou de uma umbela. Nos cardos é onde estão os espinhos que mais interessam para os separar.
Panícula
Um ramo de flores muito dividido, aberto e arejado, como o penacho das canas.
Pétala
Cada uma das peças coloridas da flor, as que dão nas vistas. Contá-las é muitas vezes o primeiro passo para chegar à família: as crucíferas têm quatro, as rosáceas cinco, os lírios seis.
Sépala
As peças verdes por baixo das pétalas, que envolviam o botão antes de abrir. Em conjunto formam o cálice.
Tépala
Quando as sépalas e as pétalas são iguais e não dá para as distinguir, chamam-se tépalas a todas. É o caso dos lírios e dos narcisos.
Umbela
Flores dispostas como as varetas de um chapéu de chuva, todas a partir do mesmo ponto. É a marca da família da cenoura, que inclui a cicuta: ver uma umbela branca é motivo para ter cuidado e não para ter confiança.

A folha

Axila
O ângulo entre a folha e a haste, por cima. É onde nascem os gomos, os espinhos e muitas flores, e é o sítio onde se olha para decidir se uma coisa é folha ou folíolo.
Caduca e persistente
Caduca perde todas as folhas numa altura do ano. Persistente, ou sempre-verde, mantém-nas e vai-as trocando aos poucos. Na Península é o que separa o carvalho do sobreiro, e é um sinal que se lê de longe e sem tocar em nada.
Carnuda
Folha ou haste gorda e cheia de água, que cede quando se aperta. É a marca das plantas de duna, de rocha e de arriba.
Coriácea
Folha rija e espessa ao tacto, como couro. É típico de plantas que aguentam o verão seco, como a azinheira e o medronheiro.
Estípula
Apêndice pequeno na base do pé da folha, às vezes em forma de folhinha, de espinho ou de bainha. Presença e forma separam espécies muito parecidas.
Folhas alternas
Uma folha de cada vez ao longo da haste, em ziguezague. O contrário de opostas.
Folhas opostas
Duas folhas no mesmo nível da haste, uma de cada lado. É dos sinais mais rápidos de ler e dos que mais depressa elimina famílias inteiras.
Folíolo
Cada uma das partes de uma folha composta. Saber se está a ver uma folha com cinco folíolos ou cinco folhas muda a identificação: olhe para a base, uma folha tem sempre um gomo na axila e um folíolo não.
Glabra
Sem pelos nenhuns, lisa ao tacto. Muitos pares de espécies muito parecidas separam-se só por uma ser glabra e a outra peluda.
Glauca
Verde azulado ou acinzentado, muitas vezes por causa de uma camada de cera que se apaga com o dedo.
Lanceolada
Folha estreita e comprida, mais larga perto da base e a afunilar para a ponta, como a lâmina de uma lança.
Limbo
A parte chata e larga da folha, aquela que se chamaria folha em linguagem normal. Distingue-se do pecíolo, que é só o pé.
Lobada
Folha com recortes fundos mas sem chegar a separar-se em folíolos, como a do carvalho.
Nervura
As linhas salientes que atravessam a folha. Se são paralelas ou ramificadas, e quantas partem da base, é muitas vezes o sinal decisivo.
Pecíolo e séssil
O pecíolo é o pé que liga a folha à haste. Séssil é o contrário: a folha encosta directamente ao caule, sem pé nenhum. Parece detalhe e não é: em géneros inteiros esta é a única diferença entre duas espécies.
Pinada
Folha composta com os folíolos alinhados dos dois lados de um eixo, como uma pena. Bipinada é o mesmo outra vez: cada folíolo volta a dividir-se, como nas acácias.
Pubescente e tomentosa
Graus de pelo. Pubescente é pelo fino e curto. Tomentosa é uma penugem densa que faz a folha parecer feltro e muitas vezes cinzenta.
Serrada, denteada, crenada
Três maneiras de a margem da folha não ser lisa. Serrada tem dentes inclinados para a frente como um serrote, denteada tem dentes direitos, crenada tem ondas arredondadas.
Verticilo
Três ou mais folhas ou flores em roda, todas ao mesmo nível da haste. Nas labiadas as flores fazem andares destes ao longo do caule.

O fruto

Aquénio
Fruto pequeno e seco com uma só semente que não abre, e que muita gente confunde com a própria semente. Cada bocado do dente-de-leão que voa é um aquénio com o seu pára-quedas.
Baga
Fruto carnudo todo mole por dentro, com as sementes soltas na polpa, como o tomate ou a uva. Atenção: baga não quer dizer comestível. Muitas das bagas mais vistosas e mais apetecíveis ao olho são das plantas mais tóxicas que há.
Cápsula
Fruto seco que abre sozinho quando amadurece, libertando as sementes por fendas ou por poros.
Drupa
Fruto carnudo com um caroço duro no meio, como a azeitona, a cereja ou o pêssego. Abrir um e ver se tem caroço único ou sementes soltas separa depressa muitas espécies parecidas.
Pinha
As coníferas não têm flores nem frutos verdadeiros: têm cones com as sementes entre escamas lenhosas. A forma, o tamanho e o tempo que levam a abrir separam pinheiros que de longe parecem todos iguais.
Sâmara
Fruto seco com uma asa de papel que o faz rodopiar ao cair. É o helicóptero do bordo e do freixo.
Síliqua
Fruto comprido e estreito que abre por duas metades deixando uma parede fina no meio, como um papel. É a marca das crucíferas, a família das couves e dos saramagos.
Vagem
Fruto seco e comprido que abre por duas costuras, com as sementes em fila. É a marca das leguminosas, a família das giestas, dos tremoços e das ervilhas, e muitas dessas vagens são tóxicas apesar de terem ar de ervilha.

O porte, a casca e a raiz

Anual, bienal e vivaz
Quanto tempo a planta vive. Anual nasce, dá semente e morre no mesmo ano. Bienal leva dois, com folhas no primeiro e flor no segundo. Vivaz ou perene volta todos os anos da mesma raiz.
Bolbo
Órgão subterrâneo feito de folhas carnudas sobrepostas, como uma cebola. Guarda reservas para a planta rebentar depressa quando chega a altura.
Casca
A camada exterior do tronco. É o sinal mais útil no inverno, quando não há folhas nem flores: se é lisa ou gretada, se solta em placas ou em tiras, se é acinzentada ou avermelhada. O sobreiro identifica-se só por aqui.
Espinho e acúleo
Não é a mesma coisa. O espinho é uma folha ou um ramo transformado e não se solta sem ferir a planta. O acúleo, como o da roseira e da silva, é só da casca e arranca-se com a unha.
Estolho
Haste que corre à superfície e enraíza onde toca, como no morangueiro.
Gomo
O rebento fechado de onde sai a folha ou a flor. Nas árvores de folha caduca é o que resta no inverno, e a sua posição, cor e número de escamas chega para identificar muitas espécies sem uma única folha.
Herbácea
Sem madeira, de haste tenra, que geralmente seca no fim da estação.
Látex
Líquido leitoso que sai quando se parte a haste ou a folha. Nas euforbiáceas é irritante para a pele e para os olhos, por isso não vale a pena testar com a mão sem saber o que se tem à frente.
Lenhosa
Com madeira, ou seja que não morre no inverno e vai engrossando de ano para ano. O contrário de herbácea.
Perene
Que vive vários anos. Cuidado com a confusão: aplicado às folhas, perene quer dizer outra coisa, que a planta não as perde no inverno.
Porte: erva, subarbusto, arbusto, árvore
A forma geral da planta, e a primeira coisa que se vê de longe. Erva não tem madeira. Subarbusto tem madeira só na base e ramos tenros em cima, como o tomilho. Arbusto é lenhoso e ramifica desde baixo. Árvore tem um tronco claro que só ramifica mais acima.
Resina
Líquido espesso e pegajoso, quase sempre cheiroso, que escorre de cortes na casca. Nos pinheiros e nas estevas é um dos sinais de campo mais fiáveis, porque o cheiro não engana.
Rizoma
Haste que cresce deitada debaixo da terra e vai lançando raízes e rebentos. É o que torna muitas invasoras impossíveis de arrancar: parte-se e cada pedaço rebenta outra vez.
Roseta
Folhas todas à roda, encostadas ao chão, saindo do mesmo ponto. Muitas plantas passam o inverno assim e só levantam a haste da flor na primavera, o que faz com que a mesma espécie pareça duas consoante a altura do ano.
Tubérculo
Engrossamento subterrâneo que guarda reservas, como a batata. Ao contrário do bolbo, não tem camadas.

Onde cresce

Laurissilva
A floresta húmida e sempre verde da Madeira e dos Açores, de folhas largas e coriáceas, herdeira directa das florestas que cobriam o sul da Europa antes das glaciações. A da Madeira é Património Mundial, e boa parte do que lá se vê não existe em mais lado nenhum.
Mato
Vegetação baixa e lenhosa de estevas, urzes, tojos e rosmaninhos, que ocupa encostas secas e terrenos que foram floresta ou campo. É o habitat mais característico da Península e onde está boa parte deste catálogo.
Ruderal
Planta das bermas, dos entulhos, dos currais e dos sítios remexidos por gente e gado. Não é insulto: são as plantas que mais se encontram numa caminhada, precisamente porque vivem onde nós andamos.

Falta aqui um termo que encontraste numa ficha e não percebeste? Diz-nos e entra. Diz-nos qual.